diário, memórias e autoficção

Quando vi o anúncio do curso de escrita de diários e memórias eu pensei: isso é para  mim.   Admiro muito a professora Ana Holanda.

Vim aqui transcrever (e com certeza dar uma editada) nos textos que criei durante o curso :)


memória de infância  

Estou  fazendo aulas de escrita e fui desafiada a preparar um texto sobre uma memória de infância. Até aí tudo bem... O problema é que o texto pode ser lido para os colegas e isso não me deixa opção sobre a memória que vou compartilhar.


No teatro da cidade que eu cresci, o Teatro carlos Gomes, tinha uma escada ¨secreta" parecia uma escada de castelo e tinha um clima de bastidores. Aquela escada caracol levava a sala que tinha as janelas em arco que eu gostava. A luz entrava e marcava a dança no piso de madeira.


Eu adorava a sala, as aulas, a professora, era incrível. Até chegar a apresentação de fim de ano e eu, no auge da maturidade dos meus 10 anos, ser escalada para o papel principal. Depois daquilo eu nunca mais voltei para o balé. Por causa do medo do palco principal eu  nunca mais voltei na sala que eu gostava.


A professora ligou, minha mãe perguntou, meu pai tentou conversar, mas ninguém insistiu ou me obrigou. Acho que eu gostaria que eles tivessem feito isso, mas talvez eles só estivessem respeitando minha escolha.


Hoje eu dancei em casa, sozinha, sem palco, sem platéia. Fui a personagem principal, como sempre!


recorte   


Hoje, na aula de escrita, a professora Ana falou sobre os recortes nos diários. Que são os recortes que deixam os diários interessantes.

Talvez meu recorte seja ser estranha, chata, dramática e introvertida no país mais extrovertido do mundo. Não! Recorte ruim.

Diário da pessoa perdida!  Encaixe perfeito. Tão amplo quanto diário para felicidade... O quanto de identidade estou colocando no meu recorte? E de realidade?  Será que eu conto tudo? Meu recorte é profundo o suficiente? O quanto eu tenho cortar para ter um recorte interessante?


Diário da 40+ solteira sem filhos. Diário da artista que não quer viver de arte. Diário de gastei minhas economias e não tenho mais reserva de emergência.


Meu recorte mais honesto é que estou tentando reconstruir minha vida enquanto minha mãe esta partindo no quarto ao lado.  Esse ano fez 10 anos que minha mãe foi diagnosticada com Alzheimer. Eu me dediquei a ela mais ativamente nos primeiros 7 anos.  Nos últimos 3, pós pandemia, estou buscando meu caminho com a sensação que ainda não encontrei. Esse recorte me cortou. Doeu pela honestidade. Contém muita realidade.


AUTOFICÇÃO  


O avião estava cheio. Eu entrei quase sem ar. Comecei a procurar um lugar para colocar minha mala de mão. Meu chefe veio me ajudar sem muito sucesso. A comissário veio buscar minha mala para despachar.  Sentei aliviada e dormi o voo inteiro, nem acordei para o lanchinho.


Que alívio chegar em casa depois de uma semana inteira de trabalho à bordo na chuva.  Eu morava em Brasília e amava a seca. O aeroporto é enorme e demorei a chegar na esteira. De longe já estava procurando minha mala.  Quando me aproximei da esteira vi um trouxa de roupas amassadas e emboladas. Fiquei processando àquela imagem por alguns segundos.  Meu chefe comentou:  estourou alguma mala.  Eu concordei.


Aquela trouxa de roupa era parte da minha roupa suja que estava no bolso lateral da minha mala.  Minhas roupas íntimas estavam circulando na esteira do aeroporto. Primeiro vi uma meia, depois um top. O auge do constrangimento foi pegar a mala assistindo minha calcinha cara vindo na minha direção sabendo que ainda tinha mais por vir.


A imagem do post é do perfil do instagram da @Leticia_loureiro.  A Ana citou muito a Maya Angelou no curso.