Trabalhei numa empresa por projetos, e cada vez morava num lugar diferente. Tinha cota de bagagem de 33 quilos, vivia com uma mala e podia ser enviada para outro projeto a qualquer momento. Nessa época meu armário era uma cápsula para quatro estações: 90% trabalho, 10% lazer.


Para uma pessoa que ama fios, crochê, bordado, costura, viver com uma mala de 33 quilos é desafiador. Eu sonhava em ter minha casa, com as minhas coisinhas.


Hoje em dia meu armário equivale a um de três portas, e ainda tenho mais uma arara. E uma sapateira. Tentei contar quantas peças e perdi as contas. Quando vejo um brechó baratinho, compro sem pensar mais um cacareco novo. Que delícia! Me tira daqui!


Quando trabalhava na empresa, eu não sabia quantas peças tinha, mas sabia quanto pesava a mala. E era bem precisa. Que saudade da mala de 33 quilos. A regra era clara: durante três meses, comprou coisa nova, tem que deixar algo para trás. Eu gosto mais da novidade ou do que já tenho?


Ter menos roupas tinha um lado feliz. Te dá uma leveza, te faz pensar sobre o que vale a pena carregar na vida. Quais são as suas coisas favoritas? Suas coisas cabem numa mala, num contêiner ou num navio inteiro?


Esse ano saiu uma série que curti muito, chamada A Gente Tenta. Tem uma cena de um caminhão despejando na rua todos os pertences de uma pessoa. E aquilo me pegou, justamente por me fazer pensar em tudo que eu acumulo. Assisti à cena no meu sofá, cercada das minhas coisinhas, pesquisando online uma comprinha e olhando para a raquete vintage que comprei sem nunca ter jogado tênis na vida. Que delícia! Me tira daqui!


Será que ter menos roupas me deixaria mais feliz? Todo mundo já ouviu a frase de Vivienne Westwood: compre menos, escolha bem, faça durar. Acho a ideia incrível, mas a realidade é um pouco diferente, né?


Eu queria fazer durar uma jaqueta de couro marrom, de gola grande e charmosa. Comprei numa viagem, paguei uma fortuna, usei muito. É linda. E está uns dois anos sem uso, porque está apertada. Ela durou. Meu estilo dos 30, não. Meu corpo da época, muito menos.


Não quero uma mala de 33 quilos, nem um quarto inteiro só de roupas. Não quero comprar horrores, mas também quero me permitir comprar fúteis. Quero fazer durar, enquanto durar. Quero um armário que reflita quem eu sou hoje, e até um pouco quem serei no futuro, mas não quem eu já fui um dia. Quero poder comprar coisas com a minha cara de agora e deixar ir o que não cabe mais.

Tenho um livro das antigas chamado Os Segredos do Guarda-Roupa Europeu. Ela ensina a montar um guarda-roupa enxuto, de qualidade, que seja a sua cara. Decidi viver esse processo, e agora tenho um plano. Vou me despedir e vender vários looks — deixar o guarda-roupa mais enxuto, sim, mas também abrir espaço para coisas que combinem mais com o meu vestir de hoje (provavelmente um vintage usado, em perfeito estado).



 

enjoei

 

Abri minha lojinha no Enjoei. Cada peça que não faz mais sentido para mim vira anúncio.

o que eu vendo lá

 

  • Roupas que não servem
  • Roupas que não me identifico
  • Roupas que fiz de crochet
  • Roupas que customizei
  • Roupas que garimpei