Vocês consertam coisas?
Quando um carro quebra, a gente conserta. Quando tem vazamento em casa, a gente conserta. Mas e a blusa que fura? E o cabo do carregador que abre?
Uma das coisas que mais me deixam feliz na vida é consertar coisas.
Uma das minhas jaquetas favoritas voltou pra casa com um furo de cigarro. Fiz uma trama pra cobrir. Tenho um cabo de carregador todo remendado que continuo usando — poderia trocar, mas não quero. Tem um certo orgulho nisso. De não ter desistido. De ter dado conta.
Há muitos anos, minha finada cadelinha — a Luna — roía calcinhas. Bem a parte que cheirava xuxu. Vergonhoso. Um dia ela roeu o shorts novo de uma amiga. A gente tinha comprado iguais, e eu não sabia se me sentia aliviada por ela não ter roído o meu ou desesperada por ter que repor o da minha amiga.
Pedi pra tentar consertar antes de comprar um novo. Ela topou.
O ideal seria um tecido índigo blue, discreto, invisível. Mas por algum motivo escolhi um estampado de florzinhas. Separei uma linha na cor do jeans e fiz o cerzido. O reparo tinha uns dois centímetros, ficava na parte interna da perna, perto do bumbum — só dava pra ver se ela fizesse um malabarismo meio erótico.
Quando vi o resultado, fiquei triste por não ser meu shorts.
Mostrei apreensiva. Ela amou. Percebeu que agora aquele shorts era único.
Conserto roupas, sapatos, eletrodomésticos. Já consertei a placa da minha máquina de lavar por um terço do valor orçado. Uma peça de dez reais resolveu o problema da minha chaleira elétrica. Meu fone de ouvido é todo remendado — as consultoras de imagem diriam que aquilo compromete a aparência. Eu diria que ela revela caráter. Demonstra que não desisto e não descarto com tanta facilidade.
Já tentei consertar pessoas também. Remendar relações. Não funcionou. E nem me deixou feliz.
Prefiro consertar coisas. E estou tentando me consertar também.
Talvez salvando as coisas eu me conserte pelo menos um pouquinho — principalmente quando consigo colocar um pouco de beleza e da minha personalidade nos remendos.
Isso me faz feliz.