Felicidade em tempo de despedida
Todo dia eu acordo de manhã e caminho até o quarto da minha mãe.
Da porta, vejo ela imóvel, e me aproximo para sentir a respiração.
Ela ronca e sinto todo meu corpo relaxar.
Quando repete uma sílaba — a mesma, duas vezes, como quem aprende uma língua que só ela conhece — é uma promessa de vida. Pelo menos por mais um dia.
Os braços dela repousam finos sobre o cobertor. Mãos que já foram mãos. Enquanto me programo para levantar peso no quarto que já foi dela.
Ela sempre sentiu inveja da minha juventude. Nunca disse assim, mas eu sabia.
Como se pode querer ser feliz com a morte ensaiando no quarto ao lado?
Buscar felicidade em mais um dia de despedida só pode ser egoísmo. Ou uma piada de mau gosto. Ainda não decidi.
Me pergunto qual de nós está mais perdida.
E sigo o dia assim — sem resposta, com café.
 
Ganhei flores essa semana.
Postei no Instagram — a luz estava boa, as cores também.
Minha amiga perguntou se estava tudo bem com a minha mãe.
Fiquei olhando para a pergunta por um tempo.
As mesmas flores que escolhi por serem um símbolo de vida carregam, para quem me conhece, o cheiro do luto.
Respondi que estava tudo bem. Mas não sei se é verdade.
A certeza que tenho é que ninguém acredita — inclusive eu.