Minha mãe sempre teve o mesmo corpo, e o armário dela era sempre mais ou menos o mesmo. Desapegava aqui e ali, comprava peças novas com ponderação. Eu sempre quis atingir esse ideal.


Comecei a prestar atenção nisso aos 15 anos. Ela tinha 45, minha idade hoje. Para uma adolescente, chegar em algo perto de um armário atemporal era quase impossível. Estilo muda, corpo muda, cor do cabelo muda. Para minha mãe, talvez só tenha sido possível depois dos 45. Eu nunca vou saber. Fato é que até aqui eu vivi muito efeito sanfona, muito ganha e perde. Não consigo dizer se algum dia terei algo parecido com o armário da minha mãe, todo constante. Só posso dizer da realidade que meu armário vive hoje, até meus 45 anos: um armário circular, acoplado a uma lojinha de desapegos, o Enjoei, ambos coabitando meu quarto. Minhas roupas são garimpadas, curtidas e revendidas deliberadamente, num mix de medo de arrepender e "vamos abrir espaço para o novo".


O modelo de consumo atual, que favorece as coisas usadas, os brechós e a moda circular, favorece esse movimento. Favorece também o sentimento de que comprar aquela peça não vai gerar um impacto maior de fabricação. A oceanógrafa que habita em mim, e os oceanos, agradecem.


E assim eu vivo num looping de garimpa, usa e desapega. Tem coisa que guardo por mais tempo, e claro que tenho as peças que são joias inegociáveis — mas isso fica pra depois.

 

enjoei

 

Abri minha lojinha no Enjoei. Cada peça que não faz mais sentido para mim vira anúncio.

o que eu vendo lá

 

  • Roupas que não servem
  • Roupas que não me identifico
  • Roupas que fiz de crochet
  • Roupas que customizei
  • Roupas que garimpei